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Só 10 Redações Nota 1000 no ENEM 2025: o Que Mudou na Correção

Neves Scholar
13 min de leitura
Só 10 Redações Nota 1000 no ENEM 2025: o Que Mudou na Correção

Foram 60 notas mil em 2023, 12 em 2024 e apenas 10 em 2025, a menor marca da história do exame. A média nacional caiu 6% e a Competência 2 despencou 11,1%. Entenda o que aconteceu com o repertório e o que fazer a respeito.

Só 10 Redações Nota 1000 no ENEM 2025: o Que Mudou na Correção

Se você estuda redação seguindo modelos prontos, este texto é sobre você. E a notícia não é boa.

O ENEM 2025 teve apenas 10 redações nota 1000. É a menor marca da série histórica do exame. Para dimensionar, veja a queda dos últimos anos:

  • 2023: 60 redações nota mil
  • 2024: 12 redações nota mil
  • 2025: 10 redações nota mil

Uma queda de mais de 80% em dois anos.


Não foi só o topo

Seria confortável pensar que isso afeta apenas quem disputa os últimos pontos. Não é o caso.

Um levantamento sobre os microdados do exame apontou queda de cerca de 6% na média nacional das notas de redação. E a queda atingiu as duas redes:

  • rede pública: cerca de 6,8% de queda
  • rede privada: cerca de 4,33% de queda

Ou seja: não ficou apenas mais difícil tirar mil. Ficou mais difícil tirar 900, 800, 700. A régua subiu para todo mundo.


Onde exatamente doeu

O dado mais revelador não é a média geral, é a distribuição por competência. A queda apareceu em todas as cinco, mas uma delas se destacou com folga:

A Competência 2 caiu cerca de 11,1% em relação a 2024.

A Competência 2 é a que avalia a compreensão da proposta, o domínio do texto dissertativo-argumentativo e, principalmente, o uso do repertório sociocultural.

Traduzindo: o que mais pesou na queda foi o repertório.


O Inep diz que os critérios não mudaram. E provavelmente é verdade.

Essa é a parte que confunde muita gente, então vale separar com cuidado.

O Inep afirma que os critérios de correção continuam os mesmos. As cinco competências são as mesmas, os níveis de cada uma são os mesmos, a matriz é a mesma. Nada disso mudou no papel.

O que mudou foi outra coisa: o que a banca aceita como repertório legítimo.

A Cartilha do Participante vem, edição após edição, reforçando três pontos que sempre estiveram lá e que agora estão sendo cobrados a sério:

  1. Autoria real do texto. O corretor quer ver alguém pensando, não um molde preenchido.
  2. Repertório efetivamente conectado ao tema, e não citado de passagem.
  3. Proposta de intervenção detalhada e viável, com todos os elementos.

Critério que sempre existiu e passa a ser aplicado com rigor produz exatamente o efeito que os números mostram: queda generalizada, concentrada na competência do repertório.


Por que o "repertório de bolso" parou de funcionar

Você provavelmente conhece o método. Decorar três ou quatro repertórios curinga que "servem para qualquer tema" e encaixar um deles na introdução:

  • a obra Utopia, de Thomas More
  • o contrato social de Rousseau
  • a alegoria da caverna de Platão
  • o artigo 5º da Constituição Federal
  • o conceito de indústria cultural, de Adorno

Nenhum desses é ruim. O problema nunca foi a fonte: é a conexão.

Quando milhares de redações abrem com a mesma citação de Thomas More, seguida da mesma frase de transição, o corretor deixa de ver repertório e passa a ver molde. E molde é exatamente o oposto de autoria, que é o que a Competência 2 e a Competência 3 pedem.

Repare no mecanismo: o curinga funciona porque serve para qualquer tema. E servir para qualquer tema é a definição de não estar conectado a nenhum.


Uma correção honesta do nosso próprio conteúdo

Este blog tem um artigo sobre repertórios coringas para a redação do ENEM e outro, o guia de como escrever a redação, que traz exemplos de introdução prontos com Thomas More.

Aqueles textos foram escritos quando esse método ainda entregava nota. Os dados de 2025 mostram que a régua se moveu, e seria desonesto deixá-los de pé sem esta ressalva.

O que continua valendo daqueles artigos: a estrutura de quatro parágrafos, a necessidade de tese explícita, os conectivos, a proposta de intervenção completa. Isso é esqueleto e não saiu de moda.

O que precisa de atualização: a ideia de que basta ter um repertório guardado no bolso. Não basta mais. Um repertório sem conexão argumentativa hoje custa pontos em vez de render.


Três testes para saber se o seu repertório conecta

Antes de usar qualquer repertório, submeta-o a estes três testes. Se ele falhar em um, troque.

1. O teste da troca. Troque o repertório por outro completamente diferente. Se o parágrafo continuar fazendo sentido sem alterar mais nada, o repertório não estava conectado: ele era enfeite.

2. O teste do "e daí". Depois de apresentar o repertório, pergunte "e daí?" e responda por escrito. Se a resposta for uma frase genérica do tipo "isso mostra a importância do tema", falta análise. Se for uma frase que só cabe naquele tema, você conectou.

3. O teste do peso. Conte quantas linhas do parágrafo são repertório e quantas são o SEU raciocínio. Se o repertório ocupa mais espaço do que a análise dele, o corretor vai ler citação, não argumento.


O detalhe da proposta de intervenção que custa 120 pontos

Enquanto todo mundo discute repertório, existe uma perda silenciosa acontecendo no último parágrafo.

A proposta de intervenção precisa de cinco elementos: agente, ação, modo, finalidade e detalhamento. A cartilha reforçou que a ausência do item ação implica a perda mais pesada, que pode chegar a 120 pontos na Competência 5.

É uma perda estranha de tão evitável. Muita gente escreve quem deve agir e para quê, mas não escreve com clareza o que exatamente deve ser feito. Escrever "o Ministério da Educação deve combater o problema" não é ação: é intenção. "Deve criar um programa de formação continuada de professores" é ação.


O que fazer nos dois meses que faltam

O ENEM 2026 será aplicado em 8 e 15 de novembro. Dá tempo, se o tempo for bem usado.

Pare de colecionar repertório e comece a conectar. Cinco repertórios que você sabe conectar valem mais que trinta decorados. Escolha poucos e pratique amarrá-los a temas diferentes, por escrito.

Escreva sobre temas que você não domina. É fácil conectar repertório num tema confortável. A prova não vai perguntar o que você prefere.

Leia as suas próprias redações com o teste da troca em mãos. Se o repertório sai e o texto não sente falta, ele não estava trabalhando.

Treine a proposta de intervenção isoladamente. Cinco elementos, dez minutos, um tema por dia. É o parágrafo com o retorno por minuto mais alto da prova inteira.


Conclusão

A queda de 60 para 10 redações nota mil em dois anos não é um acidente estatístico nem uma banca mais brava. É um exame corrigindo uma distorção: o modelo de redação industrializado, em que o aluno preenche um formulário em vez de defender uma tese.

A boa notícia é que isso favorece quem pensa. A régua ficou mais exigente na exata direção do que a prova sempre disse que queria: texto com autoria, repertório que trabalha, proposta que se pode executar.

E a má notícia é simétrica: se a sua preparação é um estoque de frases prontas, ela está sendo penalizada agora, e não vai melhorar sozinha até novembro.


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