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Crise Climática e Justiça Ambiental: Repertório e Argumentos para a Redação

Neves Scholar
12 min de leitura
Crise Climática e Justiça Ambiental: Repertório e Argumentos para a Redação

Por que o desastre climático nunca atinge todo mundo igual, com as enchentes do Rio Grande do Sul, a seca da Amazônia, o conceito de racismo ambiental e uma proposta de intervenção pronta.

Crise Climática e Justiça Ambiental

Meio ambiente é o tema que todo cursinho manda decorar, e por isso é o tema em que é mais fácil escrever um texto invisível. O corretor lê "é preciso conscientizar a população sobre a importância da natureza" cinquenta vezes por dia.

O recorte que salva esse tema tem nome: justiça ambiental. A pergunta deixa de ser "como proteger o planeta" e passa a ser "por que o mesmo desastre destrói a vida de uns e apenas incomoda outros". Essa segunda pergunta tem resposta sociológica, tem dado brasileiro recente e tem proposta de intervenção clara. A primeira não tem nada disso.


Por que esse tema pode cair

O ENEM já cobrou meio ambiente uma vez, em 2008, com a preservação da floresta amazônica e os interesses em jogo. Passaram-se quase duas décadas, e o recorte mudou: naquele tema a discussão era sobre o que fazer com a floresta; hoje a discussão é sobre quem paga a conta quando o clima vira. São textos diferentes. Some a isso o fato de o Brasil ter sediado a COP30 em Belém, em novembro de 2025, o que manteve o assunto no centro do noticiário nacional por um ano inteiro.

Some a isso o artigo 225 da Constituição, que garante a todos o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, e você tem um tema com base constitucional explícita.


Os dados que valem citar

  • Enchentes no Rio Grande do Sul, maio de 2024. Mais de 2 milhões de pessoas afetadas e mais de 180 mortes. O dado que vale é o do mapa, não o do total: as áreas de ocupação irregular e as várzeas ribeirinhas concentraram a destruição, e são justamente as áreas onde mora quem não pôde escolher onde morar.

  • Seca extrema na Amazônia, 2023 e 2024. O rio Negro chegou ao nível mais baixo já registrado em Manaus em outubro de 2024, em uma série histórica que começa em 1902. Comunidades ribeirinhas ficaram isoladas porque o rio é a estrada delas. É o contraponto perfeito da enchente: mesmo evento climático, extremos opostos, mesma população atingida.

  • Acordo de Paris, 2015. O compromisso de limitar o aquecimento a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Serve para mostrar que existe meta internacional pactuada e descumprida, não para ser citado sozinho.

  • COP30, Belém, novembro de 2025. Pela primeira vez a conferência do clima ocorreu na Amazônia. Use para argumentar sobre protagonismo e responsabilidade brasileira, não como enfeite geográfico.


Repertórios legítimos

Racismo ambiental. O termo nasceu nos Estados Unidos, em 1982, no condado de Warren, na Carolina do Norte, quando um aterro de resíduos tóxicos foi instalado em uma comunidade majoritariamente negra e os protestos foram liderados pelo reverendo Benjamin Chavis, que cunhou a expressão. É o repertório mais potente do tema porque nomeia exatamente o fenômeno: a distribuição do risco ambiental segue as mesmas linhas da desigualdade racial e social.

Ailton Krenak, "Ideias para Adiar o Fim do Mundo", 2019. O pensador indígena critica a ideia de humanidade separada da natureza e mostra que o "fim do mundo" já aconteceu várias vezes para os povos originários. É repertório nacional, contemporâneo e quase nunca usado de forma correta. Não o reduza a "precisamos respeitar a natureza"; ele está dizendo algo mais duro, que é que o modelo de progresso ocidental produz esses fins de mundo em série.

Josué de Castro, "Geografia da Fome", 1946. O médico pernambucano demonstrou que a fome no Brasil não era problema de escassez, mas de distribuição e de estrutura política. A transposição é direta: o desastre climático também não é problema de natureza, é problema de onde o Estado colocou as pessoas.

Chico Mendes, assassinado em 1988. Seringueiro e sindicalista, ligou defesa da floresta a direito dos trabalhadores que dela viviam. É a prova histórica brasileira de que pauta ambiental e pauta social nunca foram coisas separadas.


Os dois argumentos que sustentam o texto

D1 — O desastre é seletivo porque a cidade é seletiva

O argumento central: o evento climático é democrático, a vulnerabilidade não é. A chuva cai igual sobre o bairro planejado e sobre a encosta ocupada. O que difere é o saneamento, a drenagem, a qualidade da construção e a existência de rota de fuga. Quem mora em área de risco quase nunca escolheu a área: foi empurrado para lá pelo preço do solo urbano.

A análise crítica que fecha: chamar isso de tragédia natural é uma escolha de vocabulário que apaga a decisão política que produziu o mapa. Aqui entra Josué de Castro, ou o conceito de racismo ambiental, conforme o repertório que você dominar melhor.

D2 — A transição energética também pode ser injusta

Este é o argumento que praticamente ninguém escreve, e por isso ele se destaca. Descarbonizar exige minerais críticos, hidrelétricas, parques eólicos e mudanças de matriz. Todas essas obras ocupam território, e território no Brasil é habitado, muitas vezes por comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas.

A análise crítica: uma transição energética feita sem consulta reproduz, em nome do clima, a mesma lógica de expulsão que ela pretende corrigir. O repertório de Krenak entra aqui com precisão cirúrgica, assim como a Convenção 169 da OIT, que prevê consulta prévia a povos indígenas e tribais e da qual o Brasil é signatário.


A proposta de intervenção, elemento por elemento

  • Agente: o Ministério das Cidades, em conjunto com as prefeituras municipais.
  • Ação: mapear e reassentar famílias residentes em áreas de risco de inundação e deslizamento.
  • Meio: por meio da integração dos planos diretores municipais aos dados do sistema nacional de alerta de desastres, com dotação orçamentária vinculada.
  • Finalidade: com o objetivo de romper a correlação entre renda e exposição ao risco climático.
  • Detalhamento: as prefeituras são detalhadas como o ente federativo que detém a competência constitucional sobre o uso e a ocupação do solo urbano.

Esse detalhamento carrega um ganho extra: mostra que você sabe de quem é a competência, o que é raro e impressiona na Competência 5.


As armadilhas desse tema

O texto genérico de conscientização. Propor campanha educativa sobre reciclagem em um texto sobre desastre climático é resposta pequena para problema grande, e o corretor percebe o descompasso.

Culpar "o ser humano" em bloco. A frase "o homem é o responsável pela destruição do planeta" apaga a assimetria que é o coração do tema. Se todos são culpados igualmente, ninguém é, e não há intervenção possível.

Confundir com poluição urbana ou lixo. São temas vizinhos, mas a lógica argumentativa é diferente. Justiça ambiental é sobre distribuição desigual do risco, não sobre hábitos individuais.

Apocalipse sem saída. Terminar dizendo que é tarde demais destrói a Competência 5, porque proposta de intervenção pressupõe que ainda há o que intervir.


O que fica

Guarde uma frase e o texto inteiro se organiza em volta dela: o clima não discrimina, mas a cidade sim. Tudo o que este dossiê traz, dos dados de 2024 ao conceito de racismo ambiental, existe para sustentar essa afirmação e transformá-la em proposta.

Para treinar, escreva sobre o tema e submeta ao corretor de redação, que devolve nota por competência. Se a Competência 2 vier baixa, o problema quase sempre é repertório decorativo, e o artigo sobre repertórios coringas ataca exatamente isso.